SAS: Fatores de Risco, Sintomas e Complicações

 Everybody was excited, except the fat boy, and he slept as soundly as if the roaring of cannon were his ordinary lullaby… “Sleep!” said the old gentleman, “he’s always asleep.  Goes on errands fast asleep, and snores as he waits at table. 

The Posthumous Papers of the Pickwick Club, Charles Dickens, 1836


A síndrome da apneia do sono (SAS) é uma das patologias do sono mais frequentemente estudada mediante estudo poligráfico do sono, nos laboratórios do sono. No entanto, os dados da literatura apontam para que se trate de uma situação clínica subdiagnosticada devido ao desconhecimento e subvalorização por parte dos clínicos e do público em geral. De acordo com Young et al. (2008), pelo menos 75% dos doentes com SAS severa estão por diagnosticar. Estima-se que nos Estados Unidos tenha um custo associado de 3,4 biliões de dólares anuais (Guilleminault & Abad, 2004).


Doença crónica, evolutiva, com alta taxa de morbilidade e mortalidade, cujos sintomas principais são a roncopatia e a hipersonolência diurna, com graves repercussões hemodinâmicas, neurológicas e comportamentais. O seu risco aumenta com a idade e está fortemente relacionada com a obesidade, afetando sobretudo o sexo masculino e mulheres depois da menopausa. Poderá também ocorrer em crianças, estando associada a alterações craniofaciais, hipertrofia de estruturas como as amígdalas ou adenoides, sendo usualmente recomendada a remoção cirúrgica.


Diversos estudos têm sido desenvolvidos no intuito de aferir a prevalência de SAS. No estudo de Young et al. (2002), a SAS com manifestações diurnas está estimada em 1/20 dos adultos, normalmente não reconhecida e não diagnosticada, resultando em morbilidade comportamental e cardiovascular. Quando se considera a SAS minimamente sintomática ou mesmo assintomática, é estimado que ocorra em 1/5 dos adultos, raramente identificada, resultando igualmente em morbilidade. De acordo com Guilleminault & Abad (2009) estima-se uma incidência de 9% para mulheres e 24% para homens dos 30 aos 60 anos. Teixeira et al. (2007) estudaram a prevalência de SAS na população portuguesa, com recurso a questionários e estimaram uma prevalência compreendida no intervalo de 2,2% a 7,9%.


De acordo com Young et al. (2008), que estimou o risco de mortalidade, este aumenta, significativamente, até 3.8 vezes em indivíduos com SAS severa. Relativamente à mortalidade cardiovascular, poderá estar 5.2 vezes aumentada.


Também a legislação portuguesa, nomeadamente no Decreto-Lei nº 352 / 2007 de 23–10–2007, estabelece um conjunto de situações incapacitantes de origem não profissional, situações clínicas que, não sendo doenças profissionais, são incapacitantes para todas ou algumas profissões. Inserem neste conjunto a SAS, e referem-na como possível causa de invalidez pela sonolência diurna e perturbações da função cognitiva, particularmente, em determinados grupos laborais (motoristas, profissionais de voo e outros). Acresce que a síndrome pode induzir alterações funcionais condicionantes de invalidez: grave hipoxemia, hipertensão pulmonar, cor pulmonale.

 


FATORES DE RISCO E SINTOMAS DA SAS:


Os fatores de risco que têm sido descritos para a SAS são a idade (meia idade), o sexo (masculino), a obesidade, o aumento do perímetro do pescoço, os hábitos alcoólicos e tabágicos, o consumo de fármacos (sedativos e/ou hipnóticos) e as alterações craniofaciais.


A sintomatologia pode ser dividida em diurna e noturna. As queixas diurnas são referidas pelo doente, enquanto os sintomas noturnos são, normalmente, apontados pela(o) companheira(o), motivo pelo qual a sua presença é importante na consulta médica. Os sintomas diurnos incluem a hipersonolência diurna, o cansaço ao despertar, as cefaleias matinais, a secura da boca ao acordar, as alterações cognitivas e psíquicas, o défice de memória, a diminuição da acuidade auditiva e a diminuição da libido. 


Os sintomas noturnos são geralmente referidos pelo(a) companheiro(a), e incluem a roncopatia, as paragens respiratórias, a salivação excessiva, o sono agitado, a nictúria, as crises de sufocação e a sudação noturna.

 


COMPLICAÇÕES DA SAS:


 A SAS não tratada pode dar origem a graves complicações, de natureza neuropsicológica e cardiorespiratória, podendo-se enunciar acidentes de viação, acidentes de trabalho, perturbações cognitivas, dificuldades de relacionamento social ou familiar, hipertensão arterial, arritmias cardíacas, cardiopatia isquémica, acidentes vasculares cerebrais, entre outros.


A hipersonolência diurna condiciona uma maior probabilidade de ocorrência de acidentes de viação nos doentes com SAS, sendo estimado um risco triplo do da população sem SAS, devido à diminuição das capacidades necessárias no momento de manter a vigília e de executar com rapidez e precisão uma resposta motora. Esta situação pode acarretar gravíssimas consequências não só para o doente, como também para a saúde pública, se acontecer, por exemplo, em condutores de transportes públicos ou de transportes escolares. 


Um estudo realizado nos Estados Unidos por Sassani et al. (2003) demonstrou que mais de 800 000 indivíduos estiveram envolvidos em acidentes relacionados dos distúrbios do sono no ano 2000, que custaram 15,9 biliões de dólares e a vida a 1400 pessoas. Estimou ainda que o tratamento com pressão positiva poderá reduzir anualmente este custo em 11,1 biliões de dólares, na prevenção de 500 000 acidentes e salvar cerca de 1000 vidas. Acresce ainda que a esta economia de custos não estão contabilizados os proveitos de natureza médica, económica e social, como sejam a diminuição de acidentes de trabalho, custos de hospitalização e melhoria da qualidade de vida.